A propósito do Dia do Poeta, escrevi este poema que partilho hoje convosco:
A CAVE
A CAVE
Faz de conta
Que na minha linha do horizonte
está o Mar...
Que das minhas janelas só se
avistam
Reflexos de cores azul turquesa
cristalinos a brilhar
Medusas brancas deslizantes
Com insinuações serpenteantes
Golfinhos prateados a chamar...
Seres alados e outros pássaros
deslumbrantes
Sereias encantadas a dançar
Ao longe caravelas doiradas que
pinto calmamente a navegar
Faz de conta que repouso os meus
pés em águas tépidas
E que me entretenho a escrever
sem que esteja a divagar...
Faz de conta que as crianças
brincam inocentes num farol
Cercado de uma leve espuma
branca que percorre o areal
Onde os casais se passeiam
sorridentes de mãos dadas
Faz de conta que vida é só para
amar e tomar banhos de sol
Faz de conta que as pessoas são
personagens boas
De um certo e belo romance de
cavalaria
Faz de conta que a vida é uma alegria
Em que me embalo e adormeço
feliz, dia após dia
Faz de conta que os pontos
negros são somente
Limitações ocasionais e
temporárias da Luz
Traços de uma pintura
imperfeita que desmente
Uma sombra escura ou mal
esboçada em contraluz
Esfrego os meus óculos cansados
e já meio turvos
O que eles observam já não é
nitido, já nem reluz
A minha visão amarrada ao sono
Discute com a razão quase acordada
Talvez eu esteja também doente
ou alucinada
Faz de conta que os meus olhos
são cegos,
Porque se outrora quando iluminada,
Contemplava formusura em quase
tudo
Agora sinto que embora ainda lúcidos
Já não discerno beleza em quase
nada...
Desanimada, penso na minha
atrofia bipolar...
Considero a hipótese de poder ter
endoidecido
Que esperteza de disparate é
este?...
Afasto-me do sonho...E para me
certificar
Que nada mais de errado me possa
ter acontecido
E visualizo a fria falsidade do
meu “mar”...
Enfiado numa garrafa vazia de
espumante
Residia há muito o meu grito
mais lancinante
Inserido noutro contentor de
vidro
Jazia o meu gemido mais forte e
meio perdido
O choro abominável das minhas
maiores desilusões
Rolava no chão caido aos
encontrões...
Guardei dentro doutros frascos,
outros medos
Os meus mudos soluços jamais ou
quase nunca ouvidos...
Escolhi de preferencia os
problemas mais complicados
E assim dentro deles, sagaz e
perfidamente bem contidos
Aprisionei os pérfidos conteúdos
mais agudos e invertidos
Cataloguei os meus mais graves e
piores dilemas
E aos mais perversos tapei-os
bem com o pó do tempo
Devotei-os todos ao permanente
esquecimento...
E foi quase como se nem sequer tivessem
existido...
Tranquei o portão por fora e
tentei eliminá-los
Aqui nesta cave fétida, humida e
semi-secreta
Encerrei os perspicazes
pensamentos,
Oculto-os, não falo
deles...tento ser discreta
Faz de conta que nem tenho
sentimentos...
O tempo passou e alguns secaram efectivamente
Outros nunca se foram total e definitivamente...
E num dia furiosamente turbulento
como este,
Agitam-se e amotinam-se
indisciplinadamente...
Fartos duma prisão forçada,
revoltaram-se
Deitaram por terra os fios das
razões que os aprisionaram
Abriram furos nos vidros negros
de pó que os silenciaram
Explodiram com a sofreguidão da
liberdade
E partiram finalmente as amarras
que os confinaram...
Um dia tinha que ser... Mesiricórdia!
Pedi eu...
E como se fossem piedosos..
Afogaram-me num só pranto!
Tão imensas quanto intensas
As lágrimas profusas e salgadas
Soltaram-se perigosas pelos
poros
Pelos orificios do cerne da
minha dor
Aglutinaram-se em ondas
tempestuosas de palavras
Tento limpá-las e fazer de conta
Que são meramente águas
Revoltadas e possessas...
Partindo apressadas para o alto
mar
E não os rios tintos do sangue invisivel
Que atravessou as feridas do meu
interior...
Desvendando todo o meu manto
colorido
Nesta poesia negra, muito gasta,
rejeitada e rota
Desaguaram neste desalento
nefasto que trago sobre mim
Desfazem-me a esperança de poder
regressar
Para a cíclica segurança da ilusão
Terrena...
Por momentos é como se o que me
restasse
Para me manter temporariamente à
deriva
Fossem apenas os estilhaços
desse vidro frágil...
Ou os pedaços daquelas velhas e
usadas rolhas!
Pelas quais até sinto alguma
gratidão e ternura
Guardaram-me e protegeram-me por
tantos anos
Dos lagos movediços das minhas águas
mais profundas
E dos meus oceanos de segredos tão
bem escondidos
Que nenhuns olhos por mais brilhantes
ousariam revelar...
Faço de conta que nada mais para
mim subsiste
Faço de conta que morri...já
nada existe
Que terminou esta realidade inacabada
Não desejo a solidão, nem da
vida quero nada...
Quero é conseguir sair daqui,
depressa!
Desta escuridão de gruta meio
submersa
Em que me encontro quando penso
e só me afogo,
Porque nada mais me importa do
destino demagogo!
E por isso, este é o momento
mais do que ideal
O minuto em que me interrogo, medito
e grito
Qual é afinal a minha razão de Ser? Todo este Mal?
Porquê sofrer e em pedaços me quebrar?
Porquê sofrer e em pedaços me quebrar?
E todo este sinuoso percurso que
tive que percorrer?
Esta luta diária que ainda travo
para sobreviver?
Quisera ser capaz de todo este
mistério entender!...
Um dia disseram-me que era tudo por
Amor... Pois duvido!
E mais uma vez, certamente me
terão desiludido...
Desespero ao ter que pensar ou ousar
sequer acreditar
Que há alguém neste mundo em que
ainda posso confiar...
Com um esgar de resignação traço
um falso sorriso,
Disfarço a culpa, estendo a mão
e minto
Digo que não, que eu não preciso
de muito!
Para apaziguar a dor pesada e
retraida que deveras sinto...
Pois quando abro as minhas
janelas de par em par
O que queria era poder eu
própria contemplar
Conseguir vislumbrar nesse
horizonte distante,
Saber que os meus cacos estão já
bem longe, isso sim...
E não ter que os transportar na
Cave escura e fria
Que escondo diariamente na
poesia
Que trago dentro de mim...
Que trago dentro de mim...
20/10/2016
Dia do Poeta
(Fotos tiradas da Net)
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